RIO MULATO

 

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bailarino na velha cidade

Festival "Dei Due Mondi" em Spoleto (Itália-1965)

Nasci na Itália, em Montevarchi, pequena cidade Toscana, equidistante de Firenze e Arezzo. Desse mundo, que coloriu com tonalidades antigas minha infância, ficou na memória o verde das uvas, dos olivedos e dos Apeninos, o marrom das castanhas, a brancura dos pequenos seixos rolados do rio Arno, que eu cismava serem confeitos, e da neve no inverno. Douradas eram as folhas secas que atapetavam o quintal em Outono e que eu adorava pisar para escutar aquele estalinho gostoso que todos conhecem. Azul para mim era o céu de Viareggio onde passávamos o Verão, e vermelho o piso da cerâmica da cozinha da casa onde eu nasci, e que por causa disso eu chamava "la casa rossa". Vermelho era também o nariz dos amios do meu avô, com os quais se reunia "nel Circolo dei Signori" para encher a cara de Chianti com a maior dignidade. Sentado no seu colo, ele me mostrava o rubi do vinho na contraluz dizendo: "Guarda, sangue di Cristo!" e mandava ver do jeito dele... - A cor do vinho tinto me fascina até hoje. Com cinco anos de idade, chegava pela primeira vez ao Brasil. Acho que cinco mil tonalidades de verde, entremeadas com todas as cores do mundo , me esperavam na baía de Santos, além da esmeralda imensa sobre a qual o navio ia parando, parando, até parar. Do amarelo, que compunha as cores da bandeira do meu novo país, Não guardo uma boa lembrança. Se ao menos tivesse sido uma banana, um mamão maduro...não, foi um bicho cabeludo que peguei no jardim de minha tia pensando que fosse um pintinho (?!?) - Desse episódio guardo também na memória o roxo da queimadura na palma da mão. Dias depois pintou lá em casa Zezé, a babá, e pintou mesmo, porque ela foi a primeira mulata a me ensinar que existiam pessoas de cor diferente da minha. No colégio e no bar então, nem se fala, japoneses, alemães, caboclos, criolos, negros, enfim, todas as raças passaram a fazer parte do meu universo infantil, nos dois anos que ficamos em São Paulo. Mais tarde em Montevidéu, quando nas aulas de catecismo ( pré-primeira comunhão ) "Papai do Céu" virou Deus, o criador de tudo, e aos domingos ia pescar na escola Sarandí, onde se reuniam tanto pescadores quanto pintores amadores, foi pensando nele e olhando a mágica combinação de cores, que iam surgindo nas paletas antes de se transformarem em obra de arte, que criei minha própria teoria genética. Se Deus criou as cores, e para se fazer uma obra de arte é preciso misturar essas cores, ao criar raças de cor diferente, é óbvio que o fez para elas se misturarem. Ao meu ver, essa é a razão pela qual a MULATA é uma obra prima da Natureza, e Rio, sua capital. Sim, porque se a Bahia é negra, o Rio é mulato, e quem não é, vai à praia se mulatar.

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