Descrição
Rua da Relação, esquina com Rua dos Inválidos.
Sob a cúpula monumental, a inscrição na fachada escurecida pelo tempo dá nome ao lugar: Polícia Central. A Construção, de 1910, ocupa todo um quarteirão no centro do Rio. São 6000 metros quadrados em estilo eclético francês.
O portão está fechado. Somos obrigados a dar a volta e entrar pelos fundos, pelo estacionamento da Polícia Civil. No trajeto, percebemos que todas  as janelas que dão para a calçada onde estamos são lacradas com tábuas, pregos e grades.
Um grupo de policiais fortemente armados passa por nós.
No pátio, onde outrora  houve um jardim,  nos vemos cercados por dois andares de varandas que interligam as salas dos andares superiores. Silêncio. Atravessamos o pátio em direção à cúpula, e chegamos ao foyer. É a entrada que vimos de fora, através do portão fechado. A entrada principal. O chão é coberto de pastilhas que formam sofisticados mosaicos. Sob a escadaria circular, um elevador antigo, de grades. Muitas histórias tem este lugar. O elevador: Aqui Luis Carlos Prestes despediu-se para sempre de Olga Benário. Ele subiu, prisioneiro da ditadura Vargas, e ela foi  extraditada, entregue aos nazistas para morrer em um campo de concentração. Nunca mais se viram. 
Vamos subir. Os degraus de mármore estão gastos, quebrados, assim como os vitrais que envolvem a escada. Tudo é imponente e cinematográfico. 
Segundo andar. O mesmo chão de pastilhas e um museu, com móveis, retratos de militares e placas comemorativas. Apesar dos vitrais exuberantes das janelas, a sala é sem vida e sem brilho. Os corredores que interligam  as salas de cada andar são, na verdade, varandas com vista para o pátio interno. Aqui também muitas portas estão fechadas. Por uma janela displicentemente aberta, vemos parte do museu que não está  aberto ao público. Cabeças de cera marcadas com facadas, doenças, tiros, queimaduras. Uma sala dos horrores. Um relógio esculpido no topo do segundo pavimento, no canto oposto à cúpula, nos dá uma data. 1922: É a data de conclusão da reforma  que  construiu o outro lado do prédio, fechando o edifício em torno do pátio. 
Entramos nas salas vazias. Tábua corrida, grandes janelas que se abrem aos pares para a rua e afrescos no teto. Antigos escritórios -  Até mesmo a tortura precisa de burocracia. - .
A poeira domina o espaço, que exala  cheiros estranhos, de mofo, urina e animais mortos. Não podemos dar a volta completa na varanda. Há espaços proibidos, fechados por grades. Nos sentimos vigiados o tempo todo por policiais que estranham nossa visita,  não nos querem aqui. Somos intrusos. Algumas das salas estão entulhadas de papéis; inquéritos, ordem de serviços, fragmentos da história. 
Fazemos o caminho de volta para subir o lance de escadas que nos levará ao último andar. Esta agora é mais estreita, mais cinza, mais escura. Estamos indo para o andar onde ficam as celas. Logo no alto da escada, uma parede de grades quebra a harmonia da arquitetura, como um prenúncio do que vamos encontrar. 
A nossa frente, uma grande porta de madeira com vitrais que leva à cúpula. À esquerda, as varandas e mais uma porta de grades. Seguimos através do portão pela varanda e chegamos a uma espécie de ante-sala da carceragem. O ambiente agora é ainda mais deteriorado, o chão cede conforme andamos, podre que está. O ar é denso, pesado. Atravessamos a porta que leva às celas. Todas as paredes, o chão e as portas são de ferro . Tudo cinza. Tudo escuro. Mais pesado ainda o ambiente.
 Entramos num corredor de menos de um metro de largura, com quatro celas de cada lado. As do lado esquerdo,  que dão de fundos para a ante-sala não tem janelas, enquanto que as do lado direito têm no fundo grandes janelas gradeadas voltadas para a rua. No fundo do corredor, as solitárias. São cinco cubículos de no máximo um metro quadrado, sem janelas e sem luz, apenas uma quase inexistente janela no fim do corredor, voltada para a rua. O ambiente é irrespirável, Pesado, quase tangível. 
Nos sentimos como prisioneiros e saímos deste lugar como quem foge, descendo os dois lances de escadas até o foyer sem olhar para trás. Na rua, o céu azul da  tarde de outono nos trás o  ar de volta, estamos livres novamente. Respiramos. Apesar do peso que sentimos, é grande a alegria de saber que muito em breve este macabro edifício estará iluminado, portões abertos, gente circulando, um grande centro cultural, e no lugar da morte, por aqui haverá vida, memória e esperança. 
Rafaela Amado
Rio de janeiro, 15/09/01