Segue a citação de um trecho de texto do diretor José Celso Martinez Correa, 
líder do teatro Oficina de São Paulo, criador de alguns dos momentos mais 
brilhantes de nosso teatro, como as montagens de "O rei da vela", de Oswald, 
"Vida de Galileu", de Brecht e "Bacantes", de Eurípedes. De resto, penso, Zé 
Celso dispensa apresentações. Pois aí vai a reflexão, no inconfundível 
estilo de seu autor:

"Teatro, como diz tia Oscar Wilde, dá em sociedades nobres. Quer dizer, é 
filho de uma dramaturgia da sociedade que coloca no centro a importância de 
estar vivo e ser mortal, do "é hoje só, amanhã não tem mais". Assim foi no 
século de Péricles que deu tragédia grega, no de Elizabeth, Shakespeare, no 
da vontade de poder descolonizadora tenenista ou varguista (sei lá como 
chamar isto que hoje é maldição do stalinismo liberal) deu a antropofagia, 
Villa-Lobos, Bidu Saião, Oswald. No desenvolventismo, JK deu Nelson, 
Cacilda, bossa, cinema novo, no aqui agora do tempo das multidões jovens dos 
anos 60, jorrou tropicalismo, música, cinema, teatro, política, artes 
plásticas, Plinio Marcos e Cacilda Becker de nova Antígona Chanel no teatro 
da agitação política de 68.
Nossa época de aparência, repito: aparência, pouco nobre e muito pobre, onde 
pra poder qualquer coisa, como sobre viver, por exemplo e não ser pra sempre 
matematicamente "cortado", somos convidados a viver fuçando, lambendo, 
babando, o capital especulativo, empregado da abstração economicista. Temos 
que tagarelar nas TVs e colunas para garantir a miséria social e dar vida a 
"ela", a moeda, a "real" que se recusa a virar matéria-prima concreta, 
investimento produtivo, comida devorável, esterco."


 



 

José Celso Martinez Correa
(1937)
In: "Futuro da dramaturgia depende de ´bacantes`" (Estadão, Caderno 2 de 
7/10/95)

Na próxima reflexão:
Guimarães Rosa

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