Duas palavrinhas sobre o trecho a seguir: reflexão, de fato, não é. Mas como 
Guimarães Rosa não precisa mostrar que está pensando pra fazer a gente 
pensar, resolvi selecionar a passagem. Sobre Guimarães, não vou dizer nada 
além que nunca foi voltado ao teatro, pois não quero subestimar os 
conhecimentos de ninguém.  No entanto, mesmo não sendo Guimarães um homem de 
teatro, me lembrei que no conto "Traços biográficos de Lalino Salãthiel ou A 
volta do marido pródigo" havia um diálogo que valia a citação no contexto 
destes e-mails. Em princípio, é apenas para se divertir, mas com alguma 
atenção, dá pra ir além, pois a passagem é genial. Trata-se de um diálogo 
sobre um certo "teatrinho" entre Laio, dito Lalino, o mais preguiçoso, 
malandro e pedante dentre um grupo de trabalhadores que constróem uma 
estrada e seu Marra, o chefe dos trabalhadores:

"Seu Marra tem noção de hierarquia e tacto suficiente. Começa:
- Olha, seu Laio, eu lhe chamei, para lhe aconselhar. A coisa assim não 
vai!... Seu serviço precisa de render...
- Pois, hoje, eu estou com uma coragem mesmo doida de trabalhar, seu 
Marrinha!...
- É bom... Carece de tomar jeito!... O senhor é um rapaz inteligente, de boa 
figura... Precisa de dar exemplo aos outros... Eu cá, palavra que até gosto 
de gente assim, que sabe conversar... que tem rompante... Até servia para 
fazer o papel do moço-que-acaba-casando, no teatro...
 Seu Marra foi muito displicente no final. Deu a deixa, e agora olha para o 
matinho lá longe, esperando réplica.
 Mas não pega. Não pega, porque, se bem que Lalino esteja cansado de saber o 
que é que o outro deseja, não o pode atender: do "Visconde Sedutor" mal 
conhece o título, ouvido em qualquer parte.
 - Qual, isso é bondade sua, seu Marrinha... São seus olhos melhores...
 - Não. Eu sou muito franco... Quando falo que é, é porque é mesmo... 
(Pausa)... Quem sabe, a gente podia representar esse drama, hem seu Laio?... 
Como é que chama mesmo?... "O Visconde Sedutor"... Foi o que você disse, não 
foi?
 - Isso mesmo, seu Marrinha.
 Definição, amável mas enérgica:
 - Bem, seu Laio. Vamos sentar aqui nestas pedras e você vai me contar a 
peça.
 Agora não tem outro jeito. Mas Lalino não se aperta: há atualmente nos seus 
miolos uma circunvoluçãozinha qualquer, com vapor solto e freios frouxos, e 
tanto melhor.
 - O primeiro ato, é assim, seu Marrinha: quando levanta o pano, é uma casa 
de mulheres. O Visconde, mais os companheiros, estão bebendo junto com elas, 
apreciando música, dançando... Tem umas vinte, todas bonitas, umas vestidas 
de luxo, outras assim... sem roupa nenhuma quase...
 - Tu está louco, seu Laio!?... Onde que já se viu esse despropósito?!... 
Até o povo jogava pedra e dava tiro em cima!... Nem o subdelegado não 
deixava a gente aparecer com isso em palco... E as famílias, homem? Eu quero 
é levar peça para famílias... Você não estará inventando: Onde foi que tu 
viu isso?
 - Ora, seu Marrinha, pois onde é que havia de ser?!... No Rio de Janeiro! 
Na capital... Isso é teatro de gente escovada...
 - Mas, você não disse, antes, que tinha sido companhia, lá no Bagre?
 - Cabeça ruim minha. Depois me alembrei...No Bagre eu vi foi a "Vingança do 
Bastardo"... Sabe? Um rapaz rico que descobriu que a ...
 - Espera! Espera, homem... Vamos devagar com o terço. Primeiro o "Visconde 
Sedutor". Acaba de contar.
 - Bem, as mulheres são francesas, espanholas, italianas, e tudo, falando 
estrangeirado, fumando cigarros...
 - Mas, seu Laio! Onde é que a gente vai arranjar mulher aqui para 
representar isso?... De que jeito?!
 - Ora, a gente manda vir umas raparigas daí de perto...
 - Deus me livre!
 - Ou então, seu Marra, os homens mesmo podem fantasiar de mulher... Fica 
até bom... No teatro que seu Vigário arranjou, quando levaram a ...
 - Aquilo nem foi teatro! Vida de santo, bobagem! Bem, conta, conta seu 
Laio... Depois a gente vai ver.
 - Bom, tem uma francesa mais bonita de todas, lourinha, com olhos 
azulzinhos, com vestido aberto nas costas... muito pintada, linda mesmo... 
que senta no colo do Visconde e faz festa no queixo dele... depois abraça e 
beija...
 - Espera um pouco, seu Laio...
É o caminhão da empresa, que vem de volta. Parou."


 



 
 
 

João Guimarães Rosa (1908-1967)
in: "Sagarana"

Na próxima reflexão:
Bertolt Brecht - Especial

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