No dia, 14
de agosto de 1999, lamentamos o 43º aniversário de morte de
Bertolt
Brecht. Por isso,
não quero citar uma reflexão sobre teatro. Quero,
sim, citar um
poema de um homem que fez teatro e pelo teatro se entregou a
busca de compreender
os fenômenos à sua volta. O poema é dedicado aos que
viriam ao mundo
depois da vinda de seu autor. Eis o poema, chamado "Aos
pósteros":
I
Realmente vivo
em tempos sombrios.
A palavra ingênua
é tola. Uma fronte lisa
Indica insensibilidade.
Aquele que ri
Ainda não
recebeu
A terrível
notícia.
Uma conversa sobre
árvores é quase um crime
Por que inclui
um silêncio sobre tantos delitos?
Aquele que vai
pela rua tranqüilo
Não é
mais acessível aos amigos
Que estão
em necessidade?
É verdade:
ainda ganho o meu sustento
Mas acreditem:
é por acaso. Nada
do que faço
autoriza que eu me sacie.
Casualmente fui
poupado. (Quando minha sorte acabar
Estou perdido.)
Dizem-me coma!
beba! fique feliz por ter o quê!
Mas como posso
comer e beber se
Tiro ao faminto
o que comer e
Meu copo d’água
falta a quem tem sede?
No entanto, como
e bebo.
Gostaria também
de ser sábio.
O que é
sábio está nos velhos livros:
Afastar-me da
briga do mundo e passar
Sem medo a curta
temporada
Sobreviver sem
violência
Pagar o mal com
o bem
Não realizar
os desejos, mas esquecê-los
É tido
por sábio.
Nada disso eu
posso:
Realmente, vivo
em tempos sombrios!
II
Cheguei às
cidades no tempo da desordem
Quando aí
reinava a fome
Cheguei-me aos
homens no tempo do tumulto
E indignei-me
com eles.
Assim passou o
tempo
Que me foi dado
sobre a terra.
Comi minha comida
entre as batalhas
Deitei-me para
dormir entre os assassinos
Tratei do amor
sem atenção
E vi a natureza
sem paciência.
Assim passou o
tempo
Que me foi dado
sobre a terra.
No meu tempo os
caminhos levavam ao pântano.
Minha linguagem
denunciava-me ao carrasco.
Só pude
pouca coisa. Mas esperava que sem mim
Os dominadores
se sentassem mais seguros.
Assim passou o
tempo
Que me foi dado
sobre a terra.
As forças
eram escassas. O alvo
Ficava a grande
distância.
Era bem visível,
embora
Eu mal pudesse
alcança-lo.
Assim passou o
tempo
Que me foi dado
sobre a terra.
III
Vocês, que
emergirão da maré
Onde nós
soçobramos
Pensem
Ao falarem das
nossas fraquezas
Nos tempos sombrios
De que escaparam.
Pois nós,
desesperados, trocando mais de países
Que de sapatos,
atravessamos as guerras de classes quando
Só havia
injustiça e nenhuma revolta.
No entanto sabemos:
Também
o ódio contra a baixeza
Contorce os traços.
Também
a cólera contra a injustiça
Deixa a voz rouca.
Ah, nós
Que quisemos preparar
o chão para a amabilidade
Nós próprios
não pudemos ser amáveis
mas vocês,
quando tiver chegado a hora
Do homem ajudar
o homem
Pensem em nós
Com indulgência.