Em 24 de agosto
de 1899, nascia, em Buenos Aires, Jorge
Luis Borges. Mesmo
não sendo ele um homem de teatro, não poderia deixar de
homenagea-lo.
Quem conhece algo de sua obra, logo concordará. Homem dos
mais preciosos
que este século acolheu, pensador de tantas esferas do
pensamento e do
conhecimento, Borges não se privou de, por mais de uma vez,
refletir sobre
teatro. Foi em um de seus pequenos ensaios, encontrado no
livro " Outras
Inquisições", que recolhi esta passagem primorosa que copio
abaixo:
"(...) Desta reflexão
me conduzo a uma frase casual que entrevi ao folhear
uma história
da literatura grega, que me interessou por ser ligeiramente
enigmática.
Havia aqui a frase: "He brought in a second actor" (Ele trouxe
um segundo ator).
Me detive, comprovei que o sujeito dessa misteriosa ação
era Ésquilo
e que este, segundo se lê no quarto capítulo da "Poética",
de
Aristóteles,
"elevou de um a dois o número de atores". É sabido que o
drama
nasceu da religião
de Dioniso; originariamente, um só ator, o "hipócrita",
elevado pelo coturno,
trajado de negro ou púrpura e aumentado o rosto por
uma máscara,
compartilhava a cena com os doze indivíduos do coro. O drama
era uma das cerimônias
do culto e, como todo o ritual, correu algumas vezes
o risco de ser
invariável. Isto pôde ocorrer um dia, quinhentos anos antes
da era cristã.
Os atenienses viram com maravilha e talvez com escândalo
(Vitor Hugo conjeturou
o último) a não anunciada aparição de um segundo
ator. O que pensaram
naquele dia de uma primavera remota, naquele teatro de
cor dourada? O
que sentiram exatamente? Por acaso nem estupor, nem
escândalo;
por acaso apenas um princípio de assombro. Nas "Tuscalanas"
consta que Ésquilo
ingressou na ordem pitagórica, mas nunca saberemos se
pressentiu, sequer
de um modo imperfeito, o significado daquela passagem de
um a dois, da
unidade a pluralidade e assim ao infinito. Com o segundo ator
entraram o diálogo
e as indefinidas possibilidades de reação de uns
personagens sobre
outros. Um espectador profético haveria visto que
multidões
de aparências futuras o acompanhavam: Hamlet e Fausto e Segismundo
e Macbeth e Peer
Gynt e outros que, todavia, nossos olhos não podem
discernir."
Jorge Luis
Borges (1899-1986)
"El pudor de la
historia"
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Na próxima
reflexão:
Antonin
Artaud
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