A seguir,
um trecho do ator, diretor e teórico francês Antonin Artaud,
que
dispensa apresentações,
retirada de seu mais famoso texto, na passagem em
que o seu autor
comenta a relação entre o teatro e a cultura:
"A nossa idéia
petrificada do teatro associa-se à nossa idéia petrificada
de
uma cultura sem
sombras, onde, qualquer que seja o lado para que se vire o
nosso espírito,
não se encontra mais que o vazio, enquanto o espaço está
cheio.
Mas o verdadeiro
teatro, porque mexe e porque se serve de instrumentos
vivos, continua
a agitar as sombras onde não deixou de estrebuchar a vida. O
ator que não
faz duas vezes o mesmo gesto, mas que faz gestos, mexe-se e
seguramente brutaliza
as formas, mas por detrás dessas formas e pela sua
destruição,
reúne o que sobreviveu às formas e produz a sua continuidade.
O teatro que não
está dentro de nada, mas se serve de todas as linguagens:
gesto, sons, palavras,
fogo, gritos, encontra-se exatamente no ponto em que
o espírito
tem necessidade de uma linguagem para produzir as suas
manifestações.
E a fixação
do teatro numa linguagem: palavras escritas, música, luzes,
ruídos,
indica a breve prazo a sua perda, a escolha de uma linguagem
provando o gosto
que se tem pelas facilidades dessa linguagem; e o definhar
da linguagem acompanha
a sua limitação. Para o teatro, como para a cultura,
a questão
contínua a ser a de nomear e dirigir as sombras: e o teatro, que
não se
fixa na linguagem e nas formas, destrói, por esse fato, as
falsas
sombras, mas prepara
o caminho a um outro nascimento de sombras em torno das
quais se agrega
o verdadeiro espetáculo da vida."
Antonin Artaud
(1896-1948)
"O teatro e seu
duplo"
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Na próxima
reflexão:
Sto.
Agostinho
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