Sto.
Agostinho, o famoso arcebispo de Hipona, reflete, no terceiro livro das
suas "Confissões"
sobre a sua experiência como espectador de tragédias
durante os dias
de sua juventude. A sua reflexão terá um objetivo final:
arrepender-se
de sua antiga paixão pelo teatro, esmagada pela sua paixão
da
maturidade: a
fé católica. Na época de Agostinho, essas paixões
soavam pouco
mescláveis:
"Tinha também,
ao mesmo tempo, uma paixão violenta pelos espetáculos do
Teatro, que estavam
cheios das imagens das minhas misérias, e das chamas
amorosas que alimentavam
o fogo que me devorava. Mas qual é o motivo que faz
com que os homens
aí acorram com tanto ardor, e que queiram experimentar a
tristeza olhando
coisas funestas e trágicas que, apesar de tudo, não
quereriam saber?
Por que o espectadores querem sentir a dor, e essa dor é o
seu prazer. Qual
o motivo senão uma loucura miserável, pois somos tanto mais
comovidos por
essas aventuras poéticas quanto menos curados daquelas
paixões,
apesar de apelidarem de miséria o mal que sofrem na sua pessoa,
e
misericórdia
a compaixão que têm das infelicidades dos outros. Mas que
compaixão
se pode ter para com as coisas fingidas e representadas num
Teatro, uma vez
que aí não se excita o auditor para socorrer os fracos e
os
oprimidos, mas
é este convidado apenas a afligir-se com o seu infortúnio?
Que ele fica tanto
mais satisfeito com os atores quanto mais eles o
comoveram com
pena e aflição; e que, se estes sujeitos trágicos,
com as suas
infelicidades
verdadeiras ou supostas, são representados com tão pouca
graça
e indústria
que não o afligem, sai desgostado e irritado com os atores. Que
se, pelo contrário,
for tocado com a dor, fica atento e chora,
experimentando,
ao mesmo tempo, o prazer e as lágrimas. Mas dado que todos
os homens naturalmente
desejam alegrar-se, como podem gostar dessas lágrimas
e dessas dores?
Não será que, ainda que o homem não sinta prazer pela
miséria,
no entanto ela sinta prazer a ser tocado pela misericórdia: e que,
dado que não
pode experimentar esse movimento da alma sem experimentar a
dor, aconteça
que, por uma conseqüência necessária, ele acarinhe e
goste
dessas dores?"
Santo Agostinho
(354-430)
"Confissões".
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Na próxima
reflexão:
Diderot
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