Nelson
Rodrigues. O nome já basta para que se apresente o sujeito. Separei
uma pequena passagem
de um depoimento seu, a propósito de suas primeiras
impressões
sobre o teatro:
"De repente, descobri
o teatro. Fui ver, com uns outros, um vaudeville.
Durante os três
atos, houve ali uma loucura de gargalhadas. Só um espectador
não ria:
- eu. Depois da morte de Roberto, aprendera a quase não rir; o meu
próprio
riso me feria e envergonhava. E, no teatro, para não rir,
eu
comecei a pensar
em Roberto e na nudez violada da autopsia. Mas no segundo
ato, eu já
achava que ninguém devia rir no teatro. Liguei as duas coisas: -
teatro e martírio,
teatro e desespero. No terceiro ato, ou no intervalo do
segundo para o
último, eu imaginei uma igreja. De repente, em tal igreja, o
padre começa
a engolir espadas, os coroinhas a plantar bananeiras, os santos
a equilibrar laranjas
no nariz como focas amestradas. Ao sair do vaudeville,
eu levava, comigo,
todo um projeto dramático definitivo. Acabava de tocar o
mistério
profundíssimo do teatro. Eis a verdade súbita que descobrira:
- a
peça para
rir, com essa destinação específica, é tão
obscena e idiota como
seria uma missa
cômica"
Nelson Rodrigues
(1912-1980)
"Memórias"
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Na próxima
reflexão:
Pirandello
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