A Reflexão estava prometida para Pirandello. Mas João Cabral se foi. 
Sua atividade principal, sabe-se bem, não era o teatro. Era a poesia. 
Entretanto, não poderia deixar de fazer desta reflexão,  uma pequena 
menção a essa figura ímpar de nossa cultura. A parte dessa necessidade, não 
é preciso fazer recordar que "Morte e Vida Severina" veio de suas mãos de 
engenheiro das palavras, poema dramático feito texto teatral por tantos e 
tantos diretores e atores, pilar de nosso teatro, fadado por sua dura beleza 
a ser o que é: estatisticamente, é o texto mais montado na história de nosso 
teatro. Para lembrar João Cabral, escolhi um de seus poemas que mais me 
tocam e que - afinal - pode tocar aos que como tantos de nós, vivem desta 
urgência da coletividade que é o teatro. Chama-se "Tecendo a manhã":

"Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito que um galo antes
e o lance a outros; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.
E se encorporando em tela, entre todos
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si só: luz balão."


 



 
 
 
 
 
 
 

João Cabral de Melo Neto
(1920-1999)

Na próxima reflexão:
Luigi Pirandello

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