Shakespeare,
novamente, para comemorar a 25ª edição das Reflexões
Sobre
Teatro. Para tal,
o prólogo de "Henrique V", belíssima passagem que se dá
a
apresentar ao
público os meandros da ilusão teatral e que, mais que isso,
solicita a quem
vislumbra-a, que saiba jogar com ela:
"Oh! Uma mesa de
fogo, que ascendesse
Ao mais luminoso
céu da invenção,
Um reino por palco,
príncipes a representar
E reis a observar
a cena arrebatadora!
Então deveria
o guerreiro Henrique, como ele próprio
Assumir o porte
de Marte, e a seus pés,
Atrelados como
galgos, a fome, a espada e o fogo
Rastejando a pedir
emprego. Mas perdoai, gentis auditores
Ao espírito
raso e pouco exaltado que ousou
Neste indigno
cadafalso apresentar
Tão grandioso
tema. Pode esta arena conter
Os vastos campos
da França? Podemos nós amontoar
Dentro deste cercado
todos os capacetes
Que até
o ar assustaram em Azincourt?
Oh, perdoai! Dado
que uma figura errada pode,
Em pouco espaço,
testemunhar por um milhão,
Deixai que nós,
cifras desta enorme conta,
Trabalhemos a
força da vossa imaginação.
Supondo que, entre
esta cintura de muralhas,
Estão agora
confinadas duas poderosas monarquias
Cujas frentes
alevantadas e contíguas
O perigoso e estreito
oceano separa e divide.
Completai as nossas
imperfeições com os vossos pensamentos:
Em mil partes
dividi um homem
E criai uma potência
imaginária;
Pensai, quando
falamos de cavalos, que os vedes
Imprimindo os
seus altivos cascos na terra acolhedora;
Pois os vossos
pensamentos devem agora ornar os nossos réis,
Levá-los
ali e acolá, saltando sobre os tempos,
Mudando as ações
de muitos anos
Numa hora de ampulheta;
para tal serviço
Admiti-me como
Coro desta história;
O qual, à
laia de prólogo, pede à vossa caridosa paciência
Que ouça
com mansidão e julgue com bondade a nossa peça."
William Shakespeare
(1564-1616)
"Henrique V"
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Na próxima
reflexão:
Heiner
Müller
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