É
a vez da crítica falar sobre si. Com a palavra o estudioso
norte-americano
Eric Bentley, autor dos famosos "A experiência viva do
teatro" e "O teatro
engajado". Figura de importância ímpar nos estudos
teatrais deste
século, Bentley reflete, no trecho a seguir, sobre a posição
do crítico
teatral, tomando como exemplo a sua própria realidade, a de um
crítico
que publica seus textos em um jornal de Nova Iorque:
"Escrever críticas
de teatro é pior do que pisar em ovos: é pisar em corpos
vivos e faze-los
sangrar. Os comentários do crítico podem ser muito menos
rudes do que os
que são ouvidos em qualquer coquetel oferecido em Nova York.
Mas, enquanto
os frequentadores dos coquetéis cometem apenas o pecado venial
de esfaquear os
seus semelhantes pelas costas, e ainda por cimas as suas
vítimas
nunca saberão quem empunhava a faca, o crítico comete o imperdoável
crime de desfechar
o golpe bem entre os dois olhos, e de assumir a
responsabilidade
em público. Suas vítimas sabem a quem devem odiar, e
recebem, cara
a cara, efusivas manifestações de simpatia daqueles que,
por
trás das
suas costas, concordam plenamente com o crítico. Às vezes
tenho a
sensação
de que o exercício da crítica teatral é a arte de
fazer inimigos e
não influenciar
pessoas.
Não obstante,
continuo trabalhando como crítico da única maneira que
conheço.
Não posso dizer nada àqueles que consideram essa maneira
como
inteiramente inútil
ou errada; mas eu gostaria de protestar contra aqueles
que protestam
contra mim, por julgarem que costumo ser desnecessariamente
rude e despótico;
que me escrevem cartas perguntando se não me acontece
nunca pensar que
posso estar enganado; e que procuram colocar-se sob a minha
guarda moral,
indagando o que quero, afinal de contas, fazer: animar as
pessoas ou desanimá-las,
ajudar o teatro ou impedi-lo de funcionar. Protesto
contra eles, pois
o fato de que o crítico possa estar errado (do mesmo modo,
aliás,
como o crítico dos críticos) não constitui motivo
para ele, coitado,
que pensa estar
certo, deixar de expressar as suas convicções com toda a
clareza possível;
ou mesmo para ele se abster, ao faze-lo, de recorrer a
todos os meios
de persuasão, que incluem todo e qualquer tipo de agressão
civilizada, desde
uma suave ironia até o ataque mais veemente."
Eric Bentley
(1916)
"O teatro engajado"
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Na próxima
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Peter
Brook
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