Novamente Peter Brook. Dessa vez copio uma passagem em que ele comenta a sua 
própria profissão, a de diretor teatral. Com esta encerro a série de 
reflexões sobre teatro do ano de 1999. Volto em 2000, 
provavelmente com uma outra reflexão de Eric Bentley, em razão da grande 
ressonância que seu texto sobre a crítica causou na última edição.

"O diretor pode tratar de uma peça como um filme e usar todos os elementos 
do teatro - atores, cenógrafo, figurinista, iluminadores, músicos etc. - 
como seus servos, para comunicar ao resto do mundo a sua visão. Na França e 
na Alemanha esta abordagem é muito admirada; chamam-na de "leitura" da peça. 
Cheguei à conclusão de que é um modo lamentável e canhestro de usar a 
direção; se alguém deseja dominar totalmente seus meios de expressão, é mais 
decente usar uma caneta ou um pincel como servos. Uma alternativa 
insatisfatória é o diretor que faz de si mesmo o servo, mero coordenador de 
um grupo de atores, limitando-se às sugestões, críticas e incentivo. Tais 
diretores são bons sujeitos, mas como todos os liberais bem-intencionados e 
tolerantes, seu trabalho nunca vai além de um certo ponto.
Acho que se deve dividir a palavra "direção" em duas partes. Metade da 
direção é, evidentemente, agir como diretor, ou seja, assumir o comando, 
tomar decisões, dizer "sim" e "não", ter a palavra final. A outra metade é 
manter a direção certa. Aqui o diretor torna-se guia, maneja o leme, deve 
ter estudado os mapas e saber se está indo para o norte ou para o sul. 
Procura sempre, mas não ao acaso, não pelo prazer de buscar, e sim com um 
objetivo definido: quem procura ouro pode fazer mil perguntas, mas todas 
visando ao ouro; um médico procura uma vacina fazendo infinitas e variadas 
experiências, mas sempre para curar uma doença e não outra. Se este senso de 
direção estiver presente, todos poderão desempenhar seus papéis no limite de 
sua plenitude criativa. O diretor pode ouvi-los, ceder às suas sugestões, 
aprender com eles, modificar e transformar radicalmente as próprias idéias; 
pode mudar de rota constantemente, virando inesperadamente para um lado para 
outro, mas as energias coletivas continuarão servindo a um único objetivo. É 
isto que autoriza o diretor a dizer "sim" ou "não" e faz com que os outros 
concordem de bom grado."


 



 
 
 
 
 
 

Peter Brook (1925), "O Ponto de Mudança"

Na próxima reflexão:
Plínio Marcos

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