Começo
as reflexões sobre teatro deste ano 2000 corrigindo uma falha do
ano
passado. Plinio
Marcos se foi e não pude encontrar tempo para procurar um
texto de sua autoria...
Por indicação do ator e diretor Marco Antonio Pâmio
me chega o texto
que inaugura os e-mails deste ano. Em princípio, pensei em
mandar apenas
um trecho, mas dada a síntese e a precisão das idéias
expostas, resolvi
manda-lo na íntegra. Assim, fica a minha homenagem a essa
figura que há
muito tempo se fez e se faz tão necessária em nosso teatro,
homenagem, admito,
tardia, no entanto para alguém que já não exige pressa:
"Teatro só
faz sentido quando é uma tribuna livre onde se pode discutir até
as últimas
conseqüências os problemas dos homens.
A arte é
uma magia. A gente aprende, mas ninguém ensina.
A técnica
é uma coisa mecânica. Disso ninguém duvida. Mas o artista,
por
mais sensível
que seja, não pode dispensá-la. Precisa apurar a técnica
com
muito treino,
até incorporá-la totalmente, até poder usá-la
de forma que
ninguém
perceba que ele tem técnica. Por isso, tem que usar a técnica
sem
pensar nela, sem
senti-la. Aí então o artista pode se valer da técnica
para
extravasar seus
sentimentos. No sentido de aprender a técnica, a escola pode
ser útil.
Existem
dezenas de cursos de arte dramática na cidade. Existem milhares
de
aprendizes de
ator nesses cursos. Porém só um número reduzido deles
assiste
aos espetáculos
em cartaz. Estes estudantes querem ser artistas, mas não
amam a arte. Alegam
dificuldades financeiras para não verem as peças.
Mentira. Não
têm amor ao teatro, por isso nem pensam em sacrificar duas
cervejas por um
bom espetáculo. O pior de tudo é que seus professores nem
sugerem aos alunos
que eles devam ver os grandes atores em cena.
Um diretor
não pode dar nada ao ator, pois não há o que dar.
Um diretor
pode instigar
um ator a procurar dentro de si mesmo aquilo de que precisa.
Por mais que o
ator insista em pedir luz ao diretor, ele não pode ir além
do
limite de incentivador.
Mesmo que tente, o diretor não conseguirá dar.
Quanto mais tentar,
mais diretor e ator vão se embrutecendo, se reduzindo o
diretor a um amestrador
e o ator a um animal treinado. Nada que vem de fora
ajuda um ator
a criar seu personagem. Ele tem que nascer de dentro do ator,
nutrido de coisas
que estão dentro dele, ator.
Um dia fui
assistir a um ensaio teatral. Não gosto disso. Mas fui. Desse
ensaio participavam
um velho ator cheio de experiência, um jovem ator cheio
de entusiasmo
e um diretor cheio de sucessos. O velho ator se valia de
truques, caretas,
clichês. O jovem ator se esforçava, gritava, espumava,
inchava a veia
do pescoço, suava. O diretor, de mau-humor, se limitava a
corrigir as marcas.
Nenhum deles procurava nada. Por que ensaiavam? não sei.
Encontrei
uma bela moça que se formou em arte dramática. Perguntei
o que
pretendia fazer.
Sem constrangimento, respondeu que tinha levado fotos para
uma agência
de publicidade e aguardava alguma chamada para participar de
comerciais. Será
que alguém precisa estudar para isso?
Eu logo
reconheço quem está no teatro obedecendo a um imperioso apelo
vocacional, ou
quem está procurando espaço para passear sua beleza. Aos
primeiros, trato
como irmãos. É gente que exerce seu ofício como sacerdócio.
Merecem todo meu
respeito, minha admiração, meu amor. Do segundo tipo de
gente, tenho pena.
Jamais arte e poesia vão brotar do interior de pessoas
fracas.
Onde existe
o autoritarismo, o artista é sufocado. O autoritarismo gera o
obscurantismo,
que favorece o copiador, o bobo da corte e os senhores da
estética
decorativa.
O crítico
de arte tem muita importância no sentido de ajudar o artista a
conscientizar
seu trabalho, a registrar se as propostas foram realizadas, as
metas atingidas.
Esse é, no meu entender, o papel do crítico. Porém,
quando
um indivíduo,
só porque tem um espaço em jornal, tevê, rádio,
se nomeia
crítico
e passa a escarrar regra, dizendo sem cerimônia o que o artista
devia ou não
fazer, ou então se limitando a dizer que uma coisa é bonita
ou
feia, sem saber
dar explicações, fundamentar suas opiniões, esse indivíduo
não passa
de um cretino, daninho na medida da tiragem do jornal onde escreve
ou da audiência
do seu programa. Ele deve ser desprezado pelos artistas, já
que pelo público
são completamente ignorados.
O ator começa
a ficar soberano do seu talento quando ganha consciência de
que entra no palco
para servir e não para ser servido."
Plinio Marcos
"Reflexão
sobre Arte Cênica"
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reflexão:
Eurípedes
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