Indiquei,
na última edição das "Reflexões Sobre Teatro",
que o presente
número
seria dedicado a Eurípedes. Mais uma vez forço-me a uma alteração:
quero fazer falar
Décio de Almeida Prado, leitura fundamental para quem quer
conhecer a história
de nosso teatro, que com pensamento e palavras fez tanto
pelo nosso teatro,
aquele tanto que tão poucos podem fazer. O velho crítico,
ensaísta
e historiador acaba de nos deixar. Para homenagea-lo, preferi não
procurar qualquer
passagem aforística. Basto-me hoje de uma página que gosto
muito, sobre as
origens do gênero cômico no Brasil, extraída de seu
último
livro publicado,
"História concisa do teatro brasileiro", em que faz com seu
estilo simples
o que melhor fez ao longo de sua vida, opinar e ensinar:
"(...) Um tipo
de peça que retratava o Brasil, contudo, subiu ao palco com
freqüência
, mesmo nos anos mais adversos à dramaturgia nacional: a comédia
em um ato. É
que as representações duravam horas, oferecendo ao público,
além de
um drama (ou melodrama) completo, uma ou duas pecinhas cômicas, se
possível
recheadas com números de canto e dança.
A prática
do entremez, como complemento de espetáculo, chegara ao Rio de
Janeiro trazida
pelos artistas portugueses que aportaram aqui em 1829, na
companhia encabeçada
por Ludovina Soares da Costa. Tratava-se de um espaço
de tempo pequeno,
não mais do que vinte ou trinta minutos. Mas foi o
suficiente para
que Martins Pena nele empreendesse uma bem sucedida carreira
de comediógrafo,
a primeira em proporções tais conheceu o Brasil.
O entremez de
Portugal, gênero pouco estudado por ficar à margem do circuito
literário,
tinha uma presença sobretudo de palco, como expressão mais
da
graça pessoal
e das improvisações do ator que das invenções
do texto. Tudo
começando
e acabando em não mais do que meia hora, não havia lugar
para
digressões
ou elaborações. A ação usava e abusava das
convenções da farsa
popular: quanto
a personagens, tipos caricaturais, burlescos, não raro
repetitivos; quanto
a enredo, disfarces, qüiproquós, pancadaria em cena.
Martins Pena assimilou
esses processos tradicionais, na medida em que se foi
assenhorando da
técnica e dos truques do ofício, mas sempre adicionando-lhes
uma nota local,
de referência viva ao Brasil, de crítica de costumes, na
linha de certas
comédias de Molière, de quem foi logo considerado discípulo.
O seu teatro revela
um pendor quase jornalístico pelos fatos do dia,
assinalando em
chave cômica o que ia se sucedendo de novo na atividade
brasileira cotidiana,
com destaque especial para a cidade do Rio de
Janeiro.(...)
De todos os meios
sociais, descritos com certa minúcia, resultam algumas
áreas bem
determinadas. No centro da vida nacional está o Rio de Janeiro,
isto é,
a Corte, habitada por melômanos identificados com a cultura
européia,
oficiais da Guarda Nacional (recentemente organizada), empregados
públicos
relutantes em trabalhar, vadios citadinos, comerciantes aladroados,
falsos devotos,
ingleses espertalhões, enfim, a fauna humana que se espera
dos grandes aglomerados
urbanos. Mas é também lá, na Corte, que se encontra
o teatro, qua
transfigura a realidade em ficção, e, suprema delícia,
a
ópera,
com seu cortejo de fanáticos, capazes de distinguir e apreciar um
falsete bem lançado.
Perto do Rio de Janeiro - pode-se vir de lá a pé, em
algumas horas
- situa-se a roça, delineada em traços firmes, através
de seus
cacoetes de fala
e de seus hábitos coletivos: o que se bebe, o que se come,
o que se veste,
o que se planta. Bem mais distante, entrevê-se o sertão, um
tanto bruto, um
tanto violento, disposto se for preciso a manejar a
espingarda, porém
com virtudes morais não contaminadas pelos malefícios da
civilização."
Décio
de Almeida Prado (1917-2000)
"O nascimento
da comédia". In: História Concisa do Teatro Brasileiro.
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Na próxima
reflexão:
Eurípedes
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