Chega-me
uma interessante sugestão de texto, vinda da atriz Erica
Montanheiro e
sinto-me tentado a retomar Plinio Marcos. A seguir, teremos
algo das idéias
de um artista que recupera suas origens, encontradas num
pequeno circo:
"Não entrei
na trilha dos saltimbancos por acaso, nem para ser um reles
fazedor de graça.
Eu queria consagrar a minha vida através de um imperioso
apelo vocacional.
Mas as pessoas, com suas receitas de sucesso, sem nenhum
escrúpulo,
sem nenhuma sensibilidade, vieram me falar de mil e um palhaços
geniais. Tem um
que comove multidões ao aprisionar um raio de sol pra levar
pra casa...Tem
um que faz balões de gás dançarem alegremente ao som
de seu
trompete...Tem
um que ridicularizou um tirano, um assassino sanguinário que
queria ser o senhor
absoluto do mundo...Tem um comprido, de calça na canela,
arcado para a
frente devido ao pesado fardo da indignação contra a
mecanização
imposta ao homem moderno...Tem o magro sonso...E o gordo ingênuo
e bravo...Tem
os que dão piruetas, saltam, dão cambalhotas, levam
bofetões...Tem
os que tocam música clássica em garrafas vazias penduradas
num varal...Tem
outro... e outro... e outro...Tem aquele pobre palhaço louco
que andava pelas
igrejas jogando malabares diante das imagens da Santa
Maria; esse, me
disseram, morreu enforcado na cruz do Senhor Jesus Cristo,
numa catedral
gótica...Escutei humilde a história de cada um desses
incríveis
artistas que viajavam pelas vias da loucura. Saber desses
palhaços...para
mim, Bobo Plin, um palhacinho de merda que começava a
engatinhar nos
picadeiros mal iluminados das espeluncas...saber desses
palhaços
só serviu para me tolher. Quanto mais eu sabia deles, mais e mais
Bobo Plin, o palhaço
que eu queria ser, se enroscava nas minhas entranhas. A
referência
esmagava minha intuição e provocava auto-censura. A comparação,
maldita inimiga
da igualdade, fazia dos magníficos histriões elementos
inibidores da
minha criatividade. Agora, Bobo Plin não quer saber da façanha
desses belos palhaços.
Não quer vê-los. Nem quer saber de seus bigodes,
sapatões,
guizos, pompoms, bolas, balões e babados. A magia dos grandes
artistas não
pode ser ensinada; são segredos que se aprende com o coração.
Essa magia se
manifesta quando se resolve fazer a própria alma. Para Bobo
Plin se irmanar
com os grandes palhaços que luziram nos palcos e picadeiros
tem que se esquecer
deles para sempre. Não pode recolher nenhuma indicação
deixada no caminho.
Tem que andar sem bússola, na mais tenebrosa escuridão.
Qualquer brilho,
qualquer estrela, qualquer sol, qualquer referencial vira
um ponto hipnótico
embrutecedor. E eu quero fazer a minha alma."
Plinio Marcos
(... num pequeno
circo)
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Na próxima
reflexão:
Gordon
Craig
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