Zeami é
um dos grandes nomes do teatro japonês. Atribui-se a ele a criação
do gênero
Nô. Ao longo de sua vida, escreveu cerca de 200 Nô, dos quais
a
metade ainda hoje
é representada. O trecho que vem abaixo faz parte do texto
teórico denominado "O espelho da flor", transmitido oralmente durante
décadas
e publicado apenas em 1665, mais de duzentos anos após a morte do
autor e
ator:
"Olhando as plantas
em flor, perguntamo-nos: porque se simboliza por uma
flor todas as
coisas do mundo? É pela sua existência efêmera que se
gosta
delas, elas só
florescem durante uma estação, são raras.
De igual modo,
o Nô fala ao coração e suscita o interesse. A flor,
o
interesse e a
raridade, eis a maravilha do Nô.
Florir e murchar
são inevitáveis: é o que torna as flores maravilhosas.
O
encanto do Nô,
a sua flor, encontra-se na virtude da mudança. O Nô nunca
é
estático,
transforma-se sem cessar, como a flor, e é esta mudança que
o
torna tão
raro.
No entanto, é
necessário respeitar as suas regras e evitar a extravagância,
mesmo na demanda
da raridade ou da novidade. Após todos os exercícios, no
momento de apresentar um Nô, é preciso escolher de acordo
com a situação. De entre todas as flores, só é
verdadeiramente rara aquela que eclode no seu
quadro temporal.
Do mesmo modo, se aprendestes bem as numerosas técnicas das artes,
escolhereis adaptando-vos à época e ao público; será
como uma flor na sua estação.
As flores de hoje
são semelhantes às do ano passado. Assim, o Nô, mesmo
tendo já
sido visto antes, ou inscrevendo-se num repertório importante,
retornará,
após a passagem do tempo, igualmente raro."
Zeami (1363-1444)
(Trad. Helena
Barbas)
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Na próxima
reflexão:
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