Oswald, “Rei da Vela”, 1933. Separo uma passagem, o diálogo entre o rei da 
vela Aberlardo I e o Intelectual Pinote. Se os senhores perceberem qualquer 
semelhança com nossos dias... bobagem, impressão de artista:

“(...)
ABERLARDO II (Entrando) – Há um aí que não quer sair. Está resistindo. É 
cliente novo.
ABELARDO I – Quem é?
ABELARDO II – Um intelectual. Diz que não sai sem vê-lo. Quer fazer a sua 
biografia, ilustrada. Com fotografias. Diz que dará um bom livro. Grosso!
ABELARDO I – Mande entrar. Quero vê-lo.

MAIS O INTELECTUAL PINOTE.

PINOTE (Entra de chapéu de poeta na mão. Uma gravata lírica. Sorrindo. 
Mesuras. Traz uma faca enorme de madeira como bengala.) – Bom dia, mestre.
HELOÍSA (Dá um grito lancinante) – Aí! A faca!
ABERLARDO I – Desarme esse homem! Ora essa! (Aberlado II atira-se sobre o 
Intelectual e arranca-lhe a faca simbólica) Deixar entrar gente com armas 
aqui!
PINOTE (Escusando-se humildemente.) - É inofensiva... de pau!
ABELARDO I – Confesse que o senhor planejou um atentado! Confesse!
PINOTE – Absolutamente! Por quem o senhor está tomando? É uma faca 
profissional, inofensiva, não mata...
ABELARDO II (Examinando) – Está cheia de sangue... sangue coagulado...
PINOTE – Umas facadinhas... para comer... (A um gesto de Aberlardo I, 
senta-se. Abelardo II permanece ao fundo, segurando com as duas mãos a faca 
em horizontal, como um servo antigo.) A crise é que obriga... Mas não sou 
nenhum gangster,não. Eu sou biógrafo. Vivo de minha pena. Não tenho mais 
idade para cultivar o romance, a poesia... O teatro nacional virou teatro de 
tese. E eu confesso a minha ignorância, não entendo de política. Nem quero 
entender...
ABELARDO I – É um revoltado?
PINOTE – Absolutamente não! Fui no colégio. Hoje sou quase um conservador! O 
que me falta é convicção.
ABELARDO I – Tem veleidades sociais... quero dizer, bolchevistas?...
PINOTE – Não senhor! Olhe, tenho até nojo de gente baixa... gente de 
trabalho... não vai comigo!
ABELARDO I – Muito bem!
PINOTE – Gente que cheira mal...
HELOÍSA – Ninguém dá sabão a eles para se lavarem.
ABELARDO II – Nem pão, quanto mais sabonete...
ABELARDO I (Tranqüilizando Pinote que se voltou.) – Não se incomode. Ele é 
socialista. Mas moderado, de faca também. (Sorriso dos dois.) Mas afinal, 
qual é o gênero literário que cultiva, meu amigo?
PINOTE - Os grandes homens! Pretendo fazer como Ludwig. Escrever as grandes 
vidas! Não há mais nobre missão sobre o planeta! Os heróis da época.
ABELARDO I – Pode ser também extremamente perigoso. Se nas suas biografias 
exaltar heróis populares e inimigos da sociedade. Imagine se o senhor 
escrever sobre a revolta dos marinheiros pondo em relevo o João Cândido... 
ou algum comunista morto num comício!
PINOTE – Não há perigo. A polícia me perseguiria.
ABELARDO I – É então um intelectual policiado...
PINOTE – Faço questão de manter uma atitude moderada e distinta!
ABELARDO I – Já publicou alguma coisa?
PINOTE – Já. Um livrinho! A vida de Estácio de Sá. Não saiu muito bem. Mas 
estou fazendo outro... Vai sair melhor...
ABELARDO I – A vida de Carlos Magno?...
PINOTE – Não. De Pascoal Carlos Magno. Uma coisa inofensiva...
HELOÍSA – Então os seus livros podem ser lidos por moças...
PINOTE – Decerto! Eu quero ser um Delly social! Entenderam?
ABELARDO I – Perfeitamente! Uma literatura bestificante. Iludindo as 
coitadinhas sobre a vida. Transferindo as soluções da existência para as 
soluções “no livro” ou “no teatro”. Freud...
PINOTE – Oh! Freud é um subversivo...
ABELARDO I – Um bocadinho. Mas olhe que, se não fosse ele, nós estávamos 
muito mais desmascarados. Ele ignora a luta de classes! Ou finge ignorar. É 
uma grande coisa!
HELOÍSA – Distrai muito, quando a gente é emancipada. (Tira um cigarro e 
fuma)
PINOTE – Eu prefiro as vidas!
ABELARDO I – Não pratica a literatura de ficção?
PINOTE – No Brasil isso não dá nada!
ABELARDO – Sim, a de fricção é que rende. É preciso ser assim, meu amigo. 
Imagine se vocês que escrevem fossem independentes! Seria o dilúvio! A 
subversão total. O dinheiro só é útil nas mãos dos que não têm talento. 
Vocês escritores, artistas, precisam ser mantidos pela sociedade na mais 
dura e permanente miséria! Para servirem como bons lacaios, obedientes e 
prestimosos. É a vossa função social! (...)”

 


Oswald de Andrade (1890 - 1954), “Rei da Vela”.

Na próxima reflexão:
Ariano Suassuna

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