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vela Aberlardo I e o Intelectual Pinote. Se os senhores perceberem qualquer semelhança com nossos dias... bobagem, impressão de artista: (...)
MAIS O INTELECTUAL PINOTE. Mesuras. Traz uma faca enorme de madeira como bengala.) Bom dia, mestre. HELOÍSA (Dá um grito lancinante) Aí! A faca! ABERLARDO I Desarme esse homem! Ora essa! (Aberlado II atira-se sobre o Intelectual e arranca-lhe a faca simbólica) Deixar entrar gente com armas aqui! PINOTE (Escusando-se humildemente.) - É inofensiva... de pau! ABELARDO I Confesse que o senhor planejou um atentado! Confesse! PINOTE Absolutamente! Por quem o senhor está tomando? É uma faca profissional, inofensiva, não mata... ABELARDO II (Examinando) Está cheia de sangue... sangue coagulado... PINOTE Umas facadinhas... para comer... (A um gesto de Aberlardo I, senta-se. Abelardo II permanece ao fundo, segurando com as duas mãos a faca em horizontal, como um servo antigo.) A crise é que obriga... Mas não sou nenhum gangster,não. Eu sou biógrafo. Vivo de minha pena. Não tenho mais idade para cultivar o romance, a poesia... O teatro nacional virou teatro de tese. E eu confesso a minha ignorância, não entendo de política. Nem quero entender... ABELARDO I É um revoltado? PINOTE Absolutamente não! Fui no colégio. Hoje sou quase um conservador! O que me falta é convicção. ABELARDO I Tem veleidades sociais... quero dizer, bolchevistas?... PINOTE Não senhor! Olhe, tenho até nojo de gente baixa... gente de trabalho... não vai comigo! ABELARDO I Muito bem! PINOTE Gente que cheira mal... HELOÍSA Ninguém dá sabão a eles para se lavarem. ABELARDO II Nem pão, quanto mais sabonete... ABELARDO I (Tranqüilizando Pinote que se voltou.) Não se incomode. Ele é socialista. Mas moderado, de faca também. (Sorriso dos dois.) Mas afinal, qual é o gênero literário que cultiva, meu amigo? PINOTE - Os grandes homens! Pretendo fazer como Ludwig. Escrever as grandes vidas! Não há mais nobre missão sobre o planeta! Os heróis da época. ABELARDO I Pode ser também extremamente perigoso. Se nas suas biografias exaltar heróis populares e inimigos da sociedade. Imagine se o senhor escrever sobre a revolta dos marinheiros pondo em relevo o João Cândido... ou algum comunista morto num comício! PINOTE Não há perigo. A polícia me perseguiria. ABELARDO I É então um intelectual policiado... PINOTE Faço questão de manter uma atitude moderada e distinta! ABELARDO I Já publicou alguma coisa? PINOTE Já. Um livrinho! A vida de Estácio de Sá. Não saiu muito bem. Mas estou fazendo outro... Vai sair melhor... ABELARDO I A vida de Carlos Magno?... PINOTE Não. De Pascoal Carlos Magno. Uma coisa inofensiva... HELOÍSA Então os seus livros podem ser lidos por moças... PINOTE Decerto! Eu quero ser um Delly social! Entenderam? ABELARDO I Perfeitamente! Uma literatura bestificante. Iludindo as coitadinhas sobre a vida. Transferindo as soluções da existência para as soluções no livro ou no teatro. Freud... PINOTE Oh! Freud é um subversivo... ABELARDO I Um bocadinho. Mas olhe que, se não fosse ele, nós estávamos muito mais desmascarados. Ele ignora a luta de classes! Ou finge ignorar. É uma grande coisa! HELOÍSA Distrai muito, quando a gente é emancipada. (Tira um cigarro e fuma) PINOTE Eu prefiro as vidas! ABELARDO I Não pratica a literatura de ficção? PINOTE No Brasil isso não dá nada! ABELARDO Sim, a de fricção é que rende. É preciso ser assim, meu amigo. Imagine se vocês que escrevem fossem independentes! Seria o dilúvio! A subversão total. O dinheiro só é útil nas mãos dos que não têm talento. Vocês escritores, artistas, precisam ser mantidos pela sociedade na mais dura e permanente miséria! Para servirem como bons lacaios, obedientes e prestimosos. É a vossa função social! (...)
Na próxima
reflexão:
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