A questão agora é a criação. Fiquem hoje com as palavras do dramaturgo 
paraibano Ariano Suassuna, autor de alguns dos mais conhecidos clássicos de 
nossa comediografia, como “O Auto da Compadecida” e “A Pena e a Lei”. O 
trecho a seguir foi copiado do prefácio que o dramaturgo escreveu para “O 
Santo e a Porca”:

Será que uma obra de arte precisa mesmo de explicações do autor para 
enfrentar o público? Será que a visão que o autor tem de sua obra não é a 
mais deformada de todas? Não sei, mas acredito que é muito difícil, sem 
traição a ela, explicar ou ordenar os múltiplos aspectos e sentidos que tem 
– ou pelo menos deve ter – uma peça de teatro. O fato é que a peça é um 
tumulto, e as opiniões que se formam em torno dele é outro; o que, de certa 
forma, nos autoriza a procurar, na medida do possível, um sentido para 
aquilo que talvez nenhum sentido claro possua.
Com isso, não quero dizer que, ao escrever a peça, tenha conseguido fazer 
tudo o que pretendi ao imagina-la. E quem o consegue? A obra que se 
apresenta ao público, qualquer que seja ela, é o resultado de duas derrotas: 
a primeira, porque o artista jamais conseguirá se equiparar à mobilidade, à 
vida, à riqueza, à continua invenção da realidade; a segunda, porque depois 
de inventar sua obra – que não é senão uma tentativa de resposta domada, 
clarificada e ordenada ao que o mundo contém de feroz, de disperso e 
selvagem – nunca consegue ele imprimir na obra tudo o que desejou e entreviu 
no momento da criação.

 


Ariano Suassuna (1927)
Prefácio de “O Santo e a Porca”.

Na próxima reflexão:
Bertolt Brecht

Início