Para quem
ainda não sabe, formou-se, em meados de 1998, um grupo de artistas
ligados ao meio
teatral da cidade de São Paulo que tem por objetivo discutir
e promover mudanças
em questões ligadas à política cultural. São
várias as
características
desse grupo e dessas discussões que os tornam interessantes:
discutem, além
de política cultural, a barbárie social e sua relação
bidirecional com
a cultura; não se fecham entre si: estão abrindo debates
com quaisquer
interessados, conforme é possível constatar na mídia
impressa.
Não se
limitam apenas a lamentação, mas estão procurando
soluções,
discutindo fenômenos
com profundidade e paciência, sem imediatismo, mas com
atitudes concretas.
Uma delas, que já se efetua, é a movimentação
de uma
ação
contra a Lei Rouanet.
O texto que segue
abaixo denomina-se "Manifesto Arte Contra a Bárbarie",
que veio ao conhecimento
público em maio deste ano. Assinam o manifesto os
integrantes deste
grupo de artistas, que são alguns dos mais importantes
nomes do atual
teatro brasileiro:
"O teatro é
uma forma de arte cuja especificidade a torna insubstituível
como registro,
difusão e reflexão do imaginário de um povo.
Sua condição
atual reflete uma situação social e política grave.
É inaceitável
a mercantilização imposta à cultura no País,
na qual predomina
uma política
de eventos.
É fundamental
a existência de um processo continuado de trabalho e pesquisa
artística.
Nosso compromisso
ético é com a função social da arte.
A produção,
circulação e fruição dos bens culturais é
um direito
constitucional,
que não tem sido respeitado.
Uma visão
mercadológica transforma a obra de arte em "produto cultural". E
cria uma série
de ilusões que mascaram a produção cultural no Brasil
de
hoje.
A atual política
oficial, que transfere a responsabilidade do fomento da
produção
cultural para a iniciativa privada, mascara a omissão que
transforma os
órgãos públicos em meros intermediários de
negócios.
A aparente quantidade
de eventos faz supor uma efervescência, mas, na
verdade, disfarça
a miséria de investimentos culturais a longo prazo que
visem à
qualidade da produção artística.
A maior das ilusões
é supor a existência de um mercado. Não há mecanismos
regulares de circulação
de espetáculos no Brasil. A produção teatral é
descontínua
e no máximo gera subemprego.
Hoje, a política
oficial deixou a cultura restrita ao mero comércio do
entretenimento.
O teatro não pode ser tratado sob a ótica economicista.
A cultura é
o elemento de união de um povo que pode fornecer-lhe dignidade e
o próprio
sentido de nação. É tão fundamental quanto
a saúde, o transporte e
a educação.
É, portanto, prioridade do Estado.
Torna-se
imprescindível uma política cultural estável para
a atividade
teatral. Para
isso são necessárias, de imediato, ações no
sentido de:
Definição
da estrutura, do funcionamento e da distribuição de verbas
dos
órgãos
públicos voltados à cultura.
Apoio constante
à manutenção dos diversos grupos de teatro do País.
Política
regional de viabilização de acesso do público aos
espetáculos.
Fomento
à formulação de uma dramaturgia nacional.
Criação
de mecanismos estáveis e permanentes de fomento à pesquisa
e
experimentação
teatral.
Recursos
e políticas permanentes para a construção, manutenção
e ocupação
dos teatros públicos.
Criação
de programas planejados de circulação de espetáculos
pelo País.
Esse texto
é expressão do compromisso e responsabilidade histórica
de seus
signatários
com a idéia de uma prática artística e política
que se
contraponha às
diversas faces da barbárie - oficial e não oficial - que
forjaram e forjam
um País que não corresponde aos ideais e ao potencial do
povo brasileiro."
Cia. do Latão,
Folias D´Arte, Parlapatões Patifes & Paspalhões,
Pia Fraus, Tapa, União & Olho Vivo, Monte Azul e Aimar Labaki,
Beto Andretta, Carlos Francisco Rodrigues, César Vieira, Eduardo
Tolentino, Fernando Peixoto,
Gianni Ratto,
Hugo Possolo, Marco Antonio Rodrigues, Reinaldo Maia, Sérgio de
Carvalho, Tadeu de Souza e Umberto Magnani.
Qualquer dúvida,
sugestão ou informação sobre o trabalho deste grupo,
entre em contato com o próprio, através do e-mail:
tecobar@uol.com.br
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Na próxima
reflexão:
Stanislavski
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