TEATRO DE RODA
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  •  João Estevão Weiner Bethencourt


    VEJA RIO - PERFIL - 16 de fevereiro de 2005

    O rei da comédia carioca

    João Bethencourt recebe homenagem na cidade
    Isabel Butcher

    A história se repete há quase cinqüenta anos: quanto mais os críticos combatem as peças que ele escreve ou dirige, mais o público lota as salas de teatro onde elas são encenadas. Para seus detratores, João Bethencourt é um comediógrafo que escreve textos de fácil digestão. Ele diz que não se importa, já que foi sua a opção de falar às massas e ganhar dinheiro. "Dizem que sou um autor comercial. Na América seria a glória, mas aqui é o exílio. O Brasil tem horror ao êxito", afirma o autor de sucessos de público como O Dia em que Alfredo Virou a Mão, Tem um Psicanalista na Nossa Cama e Camas Redondas, Casais Quadrados, todos montados inúmeras vezes. Foi preciso, ao longo dos cinqüenta anos de carreira, escrever mais de quarenta peças, dirigir oitenta espetáculos e conquistar platéias dos Estados Unidos, Europa, Canadá e América Central para receber, por aqui, um sinal de reconhecimento de seu sucesso. No dia 14 de março, João será o homenageado da 17ª edição do Prêmio Shell de Teatro.

    Uma olhadinha nas paredes do belo apartamento em que vive, na Lagoa, mostra o sucesso do autor também no exterior. Há cartazes de encenações de seus textos em diversos países, escritos em inglês, francês, alemão e vários outros idiomas. Para se ter uma idéia, O Dia em que Raptaram o Papa foi montada em 42 países (como Itália, Alemanha, Polônia e Hungria). No momento, é encenada em Viena. Por aqui são muitos os sucessos de público desse carioca descendente de húngaros. Bonifácio Bilhões é um deles. A peça, de 1975, já teve pelo menos cinco montagens no Brasil – a sexta com estréia prevista para o meio do ano, em São Paulo. No exterior também não fez feio. João se lembra de seis versões: três na Áustria, uma na Holanda, outra na Suíça e uma na Alemanha. A primeira montagem nacional tinha os atores Lima Duarte e Armando Bógus. Uma dupla e tanto. Na segunda, os impagáveis Rogério Cardoso e Jorge Dória. Mais sucesso.

    Mas não é só de dramaturgia que vive João Bethencourt. Um de seus maiores prazeres é dirigir peças, seja textos seus, seja de outros autores. No momento, dirige Ladrão em Noite de Chuva, do amigo Millôr Fernandes, em cartaz no Teatro das Artes. A partir de sexta (18), o público pode conferir Um Aposentado Adolescente, texto de estréia de Paulo Graça Couto, no Teatro Sesi. Em seu currículo consta a direção de clássicos de Molière como O Avarento, espetáculo memorável com Jorge Dória, O Doente Imaginário, Escolas de Mulheres e As Artimanhas de Scapino. "Molière é um excelente comediógrafo e isso me atrai. Ele é irreverente como poucos", explica João. O interesse pelo autor francês cresceu depois que ganhou uma bolsa de estudos, no fim dos anos 40, para fazer mestrado na Universidade de Yale, nos Estados Unidos. Lá, durante três anos, leu toda a sua obra, inclusive a única tragédia que Molière escreveu. De volta ao Brasil, foi convidado por Maria Clara Machado para dirigir, no Tablado, Nossa Cidade, de Thornton Wilder, em 1955. "Desde então não parei mais. Até agora, para tomar esse cafezinho", brinca João.

    Com Frank Sinatra 4815 – nome e número de um cavalo de corrida –, encenada no fim dos anos 60, João encontrou a maneira de unir o prazer de escrever ao de fazer sucesso. No palco, em determinado momento, os protagonistas Paulo Gracindo e Mário Lago travavam um longo diálogo. "Eu tinha medo dessa cena, achava que o público não ia gostar daquele diálogo comprido", conta o autor. Preocupação em vão: o embate entre os dois atores tornou-se a cena favorita do público. A peça foi montada em plena ditadura militar, época difícil até para quem escrevia comédias de apelo popular. "As cobranças vinham do outro lado, os militantes políticos e a classe artística queriam que eu tivesse uma postura mais séria, mais engajada", relembra. Sem dar muita atenção para as cobranças, João continuou com suas comédias. Por um motivo simples: "Se um dia eu perder o prazer de escrever ou dirigir, estarei dando adeus a esse simpático universo".

    (c) www.artes.com